Blumenau, a cidade que parou no tempo!

Enquanto eu arrumava minhas tralhas para me mudar de Santo André para Blumenau, ficava imaginando o que eu encontraria nessa cidade.

Eu havia passado por aqui em 2001 numa excursão cujo destino principal era o Beto Carreiro e me lembrava muito pouco do que tinha visto. Mais de dez anos depois, eu conhecia Blumenau pela oktoberfest, pela tal  herança alemã e como um ponto intermediário de turismo para quem vai ao Beto Carreiro ou a Balneário Camboriú.

O que a gente mais ouvia é que íamos estranhar, pois se tratava de um povo muito fechado e sisudo, mas essa estava longe de ser minha grande preocupação pois eu tenho fé que não há nenhum povo mais chato do que os paulistas (#sorry).

Enfim, eu sabia da oktber, sabia dos alemães e ouvia falar  da grande qualidade de vida. A expectativa era grande até eu encontrar esse texto aqui –Blumenau, uma cidade sem alma. Quando eu o li pela primeira vez, achei que poderia ser exagero da escritora e do tal amigo francês, sempre tem uns pessimistas espalhados por aí né, mas de antemão, fiquei triste por saber que não havia tantos espaços ao ar livre como eu pensava e desejava.

Brasileira que sou, peguei minha malinha e o marido e partimos. Chegamos em Blu City ( meu apelido carinhoso para a cidade) numa terça-feira chuvosa. Meus olhos passearam pela cidade e não encontrei nada alemão. Avistei um prédio bonito e imponente na beira rio, era o castelinho da Havan,me incomodei logo de início com aquela propaganda gigante em cima de um prédio que deveria ser histórico. Continuei olhando e não encontrei mais nada que não fosse o prédio da Prefeitura, de resto, achei tudo normal, um tanto quanto bagunçado.

Aí eu pensei, ” bom, muito cedo para ter uma opinião. Estamos no centro, às vezes a Blumenau que vendem está mais escondida nos bairros”. Ok, semanas e meses passaram e hoje, acho que posso falar com mais tranquilidade a respeito do que temos visto.

Blumenau é uma cidade incrível. Encontramos bons restaurantes, ótimas opções de lazer, bares, os cafés maravilhosos, a cerveja (ainda) barata, o consumo de produtos locais, adoro a quantidade de verde que ainda existe por aqui, voltar para casa andando pela beira rio, poder voltar para casa meia a noite a pé sem tanto medo, a ausência do caos que a gente encontrava em SP, mas realmente falta uma pitada de personalidade.

A cidade mesmo está feia. O asfalto é decadente, parece uma cidade pobre dos rincões do Brasil. O transporte público, a gente não deve nem comentar né!? Achamos que íamos encontrar uma mobilidade excelente, com várias ciclovias e ciclofaixas e…também não. Há algumas no centro, mas nada demais. Não tem estrutura com segurança para os ciclistas. Da educação eu não posso falar, pois não faço uso. Da saúde, fui uma vez num hospital e não demorei duas horas como em Santo André, então eu achei ótimo, mas o atendimento mesmo, foi o padrão de pronto socorro.  Do saneamento básico, outra vergonha. Não é raro encontrarmos vazamento, ou esgoto a céu aberto. Blumenau não é acessível. Não tem rampas para deficientes ou idosos. Acho um absurdo no meu prédio por exemplo, só ter uma entrada composta de uma escada, foi a primeira coisa que eu notei quando cheguei no meu apartamento. Eu não entendo ainda, como as lojas de fábrica por aqui, são mais caras do que as lojas do Brás em São Paulo. Vários amigos meus vieram empolgados pela porcelana, pelas fábricas de roupas, de cama mesa e banho e saíram tristes. Valia mais a pena ter comprado nas cidades deles, do que ter vindo até aqui.

E agora, a parte que mais me incomoda: manifestações culturais. Cultura aqui em Blumenau é um negócio tenso. Tem a oktoberfest, a sommerfest, o festival de cerveja, e o sei lá o quê mais. E aí alguém vai me perguntar ” mas se é a cidade da cerveja você queria o quê?”. Eu queria cerveja, mas com diversidade. São vários eventos mais do mesmo que não acrescentam nada a quem mora aqui, com exceção é claro, da movimentação do turismo que ajuda na economia, geração de empregos, etc.

O tempo todo os moradores ( descendentes ou não) ficam replicando o discurso alemão. Gente, Blumenau em seus tempos áureos até já pode ter sido alemão, hoje em dia ela é bem brasileira viu. Tem problemas brasileiros, tem (falta de) cultura brasileira, tem educação brasileira. Não é por que há um prédio aqui e outro acolá que isso a torna uma “Alemanha sem passaporte” (aliás, que ideia mais sem pé nem cabeça essa). Se fosse assim, as cidades históricas nordestinas, seriam muito mais européias do que Blu City. Há conjunto arquitetônico muito maior no Pernambuco ou no Maranhão do que por essas bandas de cá.

Eu super entendo as famílias alemãs que vieram refugiadas para  o Brasil manterem suas tradições. Eu mantenho as minhas, mesmo longe da minha cidade natal. Eu creio que é isso que devemos fazer mesmo. Mas ignorar a cultura brasileira para tentar manter um ar de superioridade que não existe já é desaforo. Querer transformar Blumenau numa cidade alemã, já é um pouquinho demais. Querer excluir o passado brasileiro com escravos, com indígenas, é meio triste. Querer ignorar que a população não descendente da cidade já é mais da metade, é querer tapar o sol com a peneira. Sem contar que, como eu disse acima, os alemães são refugiados. Eles vieram para um país diferente por que “deu ruim” por lá. São tão refugiados quanto os haitianos que estão chegando por aqui e a única diferença entre eles é a cor da pele.

Acho que tá mais do que na hora dos Blumenauenses procurarem a personalidade deles. Encontrarem nessa mistura de costumes algo para chamar verdadeiramente de seu. Encontrar nessa miscigenação algo que não seja apenas para movimentar o turismo da região. Por que está tudo plastificado, parece ser tudo tão de mentira que já já o povo cansa e vai procurar tomar chopp em lugares com mais vibração, cor, música e gente de verdade.

É isso!
Beijos!

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